Todos os dias ao entardecer a cena se repetia, na pedra mais alta do parque logo após a fonte sentava-se um menino de não mais de dez anos.
Era moreno de olhos claros e sempre usava um boné surrado e um chinelo que de tão velho já acumulava três pregos para segurar sua correia. Ali ficava ele pacientemente imóvel a espera de seu ídolo.
Alguns garotos tem como ídolo um ator, cantor ou herói, outros se inspiravam em seus pais, este garoto entretanto não se importava com tipos assim, tinha um gosto bastante incomum.
Após minutos de espera , eis que surge um velho senhor de aparência um pouco desleixada, talvez não tão velho assim, mas tinha porém algo no rosto que demonstrava muita sabedoria.
Usava uma camisa listrada e uma calça azul com pequenos cortes na perna direita, seu cabelo quase sempre desgrenhado, era loiro escuro de um tom que fazia lembrar palha. Apesar de tudo isso sua marca registrada era os pés descalços.
O homem repetia sempre o mesmo ritual de passar pelo garoto sem ao menos lhe dirigir o olhar, ia até a fonte, molhava os cabelos e o rosto para só então sentar-se na pedra um pouco adiante do menino, dar-lhe um sorriso e um singelo jóia com o dedo um pouco torto para o lado.
Depois disso pigarreava para aquecer a garganta e começava a contar suas histórias, descrever os lugares maravilhosos por onde avia passado e por tudo que tinha vivido.
Talvez dai viesse o interesse e a admiração do garoto, pois ele próprio só conhecia esses lugares através de livros.
Após algumas horas de conversa o senhor deu seu habitual sorriso debochado e o cumprimentou com aquele jóia meio torto que o garoto nunca entendera bem o que significava e foi embora.
No dia seguinte como de costume lá estava o menino a espera de seu ídolo, cheio de expectativa sobre o que ouviria durante as próximas horas.
Mas desta vez foi diferente, o tempo passou e o sábio não apareceu, decepcionado o garoto se levantou, foi até a fonte e com as mãos em concha pegou um pouco d'aqua e jogou no rosto exatamente como aquele senhor fazia.
Depois deu um suspiro profundo e ao olhar para o chão reparou em algo que nunca tinha visto antes.
Ao lado da fonte estava um par de chinelos ainda mais velhos que os seus, talvez estivessem ali a anos.
Sem dizer uma palavra o menino correu para sua casa, pegou uma mochila, colocou algumas coisas nela e voltou para a praça.
Olhou atentamente para os velhos chinelos, tirou os seus próprios e colocou-os ao lado da fonte.
Depois disso partiu feliz imaginando que talvez daqui a algum tempo fosse ele a voltar aquele lugar para ensinar outro garotinho a contar histórias.